Entrevista: Lee-Ann Curren



Entre umas e outras navegadas na internet, li uma entrevista interessante feita pelo jornalista Thiago Barros, que escreve o blog "Nas Ondas", hospedado no O POVO online, do Ceará. Ele conversa com a surfista Lee-Ann Curren, filha de Tom Curren, legenda mundial do esporte. Lee-Ann é namorada do cearense André Silva, filho do Titãzinho, que pode deixar de bombar suas ondas se um estaleiro for realmente construído no lugar, como deseja o Governo do Ceará. Sem se esquivar, dá uma boa contribuição na luta para que este lugar de Fortaleza que tira tantos jovens da criminalidade seja preservado.

A seguir, a entrevista, na íntegra.

Ela têm sangue azul. Lee-Ann Curren é a herdeira francesa do tricampeão mundial Tom Curren, considerado o rei do estilo. Seguindo os passos do pai, ela trilha seu caminho pelas competições, tendo conseguido, aos 20 anos, a classificação para o World Tour feminino. Este ano, ela disputa ao lado do namorado (o cearense André Silva) as etapa do WQS. Lee-Ann não esquece, no entanto, o Titanzinho, praia que visitou recentemente e que pretende documentar em filme previsto para o fim do ano. Nas próximas linhas, explica o motivo dessa sua vontade e comenta também sobre os preparativos para a produção.

Nas Ondas – Primeiro de tudo, eu queria saber se essa foi a primeira vez que você veio a Fortaleza (no começo de 2010)? Eu li em algum canto que o motivo da vinda foi porque você queria conhecer melhor o canto onde o André nasceu… é verdade?

Lee-Ann – A primeira vez que eu fui para Fortaleza foi em dezembro de 2009. Aí eu voltei em janeiro. E sim, eu queria conhecer a cidade de André e conhecer a fimília dele que mora aí.

NO – Quais foram as suas impressões do Titanzinho e do povo de lá?

LA – Eu achei um local bem legal, com pessoas calorosas e boas ondas, mas também é um pouco perigoso se você não conhece o bairro. Eu tive sorte que pude ir para lá com o André, tornar-me amiga de todos os surfistas e me divertir.

NO – Você cresceu em uma cidade que também é abencoada pelo mar (Biarritz, no sudoeste francês). Uma das mais importantes atividades econômicas lá é o turismo voltado para o mar, como em Fortaleza. Como você acha que o mar pode beneficiar a maioria da socieade?

LA – O oceano é um lugar lindo. Eu acho acho que nadar nas águas do mar pode realmente ajudar muitas pessoas, porque isso deixa você relaxado, além de ser um bom lazer. Também tem os pescadores que ganham a vida graças ao mar.

NO – Tendo o pai que tem, eu imagino que você tenha se interessdo pelo surfe desde muito cedo na sua vida. Como você, a maioria das crianças do Titanzinho surfa. Alguns deles chegam até a se profissionalizar e a ganhar dinheiro com isso. A diferença é que eles provavelmente não teriam outra oportunidade de ganhar o que eles ganham se aquela praia não existisse. Caso ela seja destruída, os pescadores também perderão seu ganha-pão. O que você acha dessa perspectiva?

LA – Eu definitivamente acho que seria uma tragédia se destruíssem aquela praia. Pude conhecer profundamente as pessoas de lá, as crianças, e percebi que tudo que eles têm é o oceano. Contruir esse estaleiro acabaria com o ecossistema do local, talvez até atraindo tubarões, como já aconteceu em Recife. As consequências seriam sentidas não só no Titanzinho, mas em todas as praias de Fortaleza (Beira-Mar, Praia do Futuro etc.). Ainda tem o fato de que o Titanzinho viu muitos moleques começarem a surfar em pedaços de madeira e, daí, evoluírem até chegar ao patamar de tops. Exemplos disso são Pablo Paulino, Tita Tavares, André Silva, Fábio Silva, e Messias Félix, que acabou de se sagrar campeão brasileiro. Destruir o melhor pico do Ceará simplesmente não faz sentido.


Entubando em Hossegor, praia da França onde acontece a etapa do World Tour masculino
NO – O Titanzinho é um lugar perigoso e desconhecido da maioria da população fortalezense. Não é segredo para ninguém que é palco de muitos crimes e tráfico de drogas. Políticas governamentais voltadas para a juventude inexistem e, basicamente, o lazer que eles têm é a praia. O que se pode dizer para quem está prestes a perder a única diversão da vida?

LA – Sim, as drogas estão realmente presentes lá e eu acho que é importante que as crianças tenham algo interessante para fazer para que não se percam nesse tipo de coisa. Cheguei a conhecer alguns jovens que não podiam ir para a escola porque ela ficava em outro bairro e uns traficantes tinham tentado matar eles. É fundamental que o governo faça algo para ajudar os garotos, em vez de abolir a única coisa que lhes traz esperança: a praia.

NO – O que fez você se decidir por fazer esse filme sobre o Titanzinho? Em que pé está a ideia?

LA – Bem, esse filme é algo que o André quer fazer há muito tempo, porque o Titanzinho é um canto muito especial para ele. Quando fui para aí, eu entendi a vontade dele e decidi ajudá-lo no projeto. Nós já filmamos muita coisa graças à ajuda dos moradores e tudo deve ficar pronto até o final do ano.

NO – Como será o financiamento?

LA – Para a produção, eu tenho um amigo que já trabalhou com o Manu Chao (músico francês) que vai nos ajudar. Ele já fez vários documentários e essa experiência será muito útil. Nós também vamos fazer um leilão de 20 pranchas usadas de surfistas profissionais no próximo verão (no hemisfério norte, o verão é no mieo do ano) em Londres. Faremos isso para levantar fundos e tentar ajudar um pouco o Titanzinho.

NO – O que você pode nos dizer sobre o filme propriamente dito? Vai ser um filme de surfe como os outros do gênero?

LA – Este filme será mais como um documentário, mas o surfe será uma grande parte dele, porque é o que nos une. Ele irá mostrar nossa trajetória por lá, as pessoas do local, a criatividade de quem mora lá. Alguma coisa positiva, com que os moradores locais vão se identificar.

Por Thiago Barros

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